1. Um título Fire Emblem totalmente novo

 

(Nota de edição: Esta entrevista Iwata Pergunta foi publicada originalmente no site da Nintendo japonesa a 21 de março de 2012. Todos os vídeos incluídos nesta entrevista foram retirados da versão japonesa do jogo.)

Iwata:

Hoje estamos aqui para falar sobre Fire Emblem: Awakening. Por isso, reuni membros das equipas da Intelligent Systems1 e da Nintendo. Um dos pontos-chave da discussão de hoje é o número de pessoas aqui presentes. Obrigado a todos pela vossa presença.1.Intelligent Systems Co., Ltd.: Uma empresa criadora de videojogos que desenvolveu software da Nintendo incluindo as séries Fire Emblem e Paper Mario, juntamente com ferramentas de apoio ao desenvolvimento para o hardware que se seguiu. Está sediada em Quioto, no Japão. Também é conhecida pelo diminutivo IS, pronunciado como a palavra inglesa “is”.

Todos:

O prazer é todo nosso.

Iwata:

Vamos começar por Narihiro-san e pelas apresentações, incluindo aquilo em que trabalharam neste jogo.

Narihiro:

Está bem. Sou Tohru Narihiro da Intelligent Systems. Tal como nos títulos anteriores da série Fire Emblem, fui o produtor de desenvolvimento deste jogo.

Iwata Asks
Iwata:

O teu papel sofreu alterações significativas no desenvolvimento deste título?

Narihiro:

Sim. Quis experimentar algo novo. Por isso, encarreguei Higuchi-san do trabalho propriamente dito. No início, nem me deixava tocar no software! (risos) Devido a isso, fui, de certa forma, afastado do projeto, o que foi uma verdadeira lufada de ar fresco.

Iwata:

Uh-huh. OK, Higuchi-san?

Higuchi:

Obrigado por este novo convite. Sou Masahiro Higuchi da Intelligent Systems. Fui o gestor de projeto e, por isso, desempenhei o mesmo papel do que no jogo anterior, Fire Emblem: Shin Monsho no Nazo.22. Fire Emblem: Shin Monsho no Nazo: Hikari to Kage no Eiyu: Um RPG de simulação lançado somente para a Nintendo DS em julho de 2010 no Japão. É o décimo terceiro título da série e um remake de Fire Emblem: Monsho no Nazo, o terceiro título desta série.

Iwata Asks
Iwata:

Dizes que desempenhaste o mesmo papel mas, desta vez, foste chamado a tomar decisões sem estares dependente de Narihiro-san.

Higuchi:

Sim. A esse respeito, tive uma grande responsabilidade. Passei muito tempo preocupado com o planeamento. Por isso, o facto de estar aqui hoje deixa-me comovido...

Iwata:

OK. Maeda-san?

Maeda:

Obrigado. Sou Kouhei Maeda da Intelligent Systems. Tal como no jogo anterior, fui o diretor. Este jogo não é um remake, nem uma sequela. É um jogo completamente novo. Por isso, esforcei-me mais do que nunca para este título.

Iwata Asks
Iwata:

Tendo em conta as “dores de parto” associadas ao cargo de diretor, faz alguma diferença começar com uma base ou criar algo completamente novo?

Maeda:

Sim. Aprendi imenso.

Iwata:

E Kusakihara-san! Este é o nosso primeiro encontro!

Kusakihara:

É um prazer conhecer-vos. Sou Toshiyuki Kusakihara, da Intelligent Systems. Estive envolvido neste jogo na qualidade de diretor de arte. Defini a direção geral da arte e também executei grande parte da arte propriamente dita. Por isso, dei no duro do início até ao fim.

Iwata Asks
Iwata:

Conseguiste acabar bastante depressa.

Kusakihara:

Sim, é verdade. E andei sempre em cima de Higuchi-san! (risos)

Iwata:

Como assim?

Kusakihara:

No geral, suponho que muitas das propostas eram excessivas. Higuchi-san tem estado envolvido na série Fire Emblem desde Fire Emblem: Seisen no Keifu3. Mas, desta vez, mais do que nunca, acho que o deixaram sem palavras. (risos)3.Fire Emblem: Seisen no Keifu: Um RPG de simulação lançado para a Super NES em maio de 1996 no Japão. Foi o quarto jogo da série.

Higuchi:

A equipa já trabalha nesta série há tanto tempo que, no que toca à essência de Fire Emblem, têm determinadas formas de fazer as coisas, apesar de nunca termos definido em concreto qual é a essência de Fire Emblem. Desta vez, quisemos criar um jogo Fire Emblem mais diferente do que qualquer um dos anteriores, especialmente no que toca aos gráficos. Por isso, fizemos questão de chamar Kusakihara-san, que nunca tinha estado envolvido nesta série.

Iwata:

Então, Kusakihara-san trouxe sangue novo para esta série.

Higuchi:

Sim. Mas as mudanças eram diferentes de tudo o que já tínhamos feito antes. Por isso, levei as mãos à cabeça, deixei-me cair na cadeira e pensei para mim “Têm a certeza de queremos incluir isso?!”

Iwata:

Isso deve ter-te deixado sem palavras! (risos)

Kusakihara:

Acho que o deixava sem saber o que dizer algumas três vezes por semana! (risos)

Iwata:

Mas com a história por trás da série e com todos os fãs que a seguem, não sentias a pressão sempre que sugerias algo novo?

Kusakihara:

Sentia bastante pressão. Mas sempre foi uma regra minha que quando defino uma direção e começo a trabalhar nesse sentido, como se perderia bastante se alterássemos o rumo das coisas a meio do caminho, tento que o percurso seja retilíneo.

Iwata:

Estou a ver. E também é um prazer conhecer-te a ti, Kozaki-san. Ouvi dizer que deste um contributo precioso no design de personagens.

Kozaki:

Sou Kozaki Yusuke e estive encarregue do design das personagens e da ilustração. Desta vez, foi...bem, foi uma trabalheira! (risos)

Iwata Asks
Todos:

(risos)

Kozaki:

Foi a primeira vez que trabalhei num jogo com tantas personagens, o que foi um desafio.

Iwata:

Como é que surgiu essa oportunidade?

Kozaki:

Recebi um e-mail através do meu site a perguntar-me se podia criar cerca de 60 personagens. Eu respondi: “É para a série Fire Emblem?”, ao que, por sua vez, me responderam: “Neste momento, ainda não podemos revelar o título.” (risos)

Iwata:

Ah, então foi assim que tudo começou. Como é que surgiu a ideia de pedir a Kozaki-san para participar?

Kusakihara:

Queria que este jogo fosse algo de novo e de poderoso. Então, quando pensei nas condições para a criação do aspeto visual, estava à procura de alguém com a técnica necessária para criar personagens diferentes umas das outras – de miúdas giras a homens mais velhos e musculados ou monstros – bem como alguém que trabalhasse rápido.

Iwata:

São bastantes condições.

Kusakihara:

Sim. E então descobri Kozaki-san. Na verdade, este não foi o seu primeiro contacto com a série. Ele trabalhou nas ilustrações para o jogo de troca de cartas Fire Emblem4. Por isso, foi uma reviravolta interessante.4.Jogo de troca de cartas Fire Emblem: Um jogo de troca de cartas baseado na série Fire Emblem. Foram lançadas seis séries no Japão.

Iwata:

Mas houve outras dificuldades além do número de personagens e da sua variedade, não foi?

Kozaki:

Sim e isso foi o mais importante. A série Fire Emblem cresceu graças aos fãs e lado a lado com a paixão dos fãs. Mas, se nos limitássemos a criar um jogo novo tal como fizemos no passado, isso não iria despertar o interesse de novos fãs. Por essa razão, apontámos para um design que atraísse novos jogadores. Para dizer a verdade, experimentei Fire Emblem algumas vezes no passado mas sempre parei a meio. Não achei que fosse aborrecido, mas é difícil entrar na série a meio. Eu era exatamente o tipo de pessoa que este novo jogo pretendia atrair, o que, na verdade, me inspirou a aceitar este cargo.

Iwata:

No que dizia respeito à missão de expandir os atrativos do jogo, percebeste qual era a motivação a que tinhas de responder.

Kozaki:

Sim, isso começou a fazer sentido.

Iwata:

Está bem. Yokota-san.

Yokota:

Sou Genki Yokota do Departamento de Planeamento e Desenvolvimento de Software. Fui o diretor da parte da Nintendo. Sempre fui fã da série Fire Emblem, por isso… uh, sinto que estou a repetir as mesmas coisas que disse quando nos reunimos para discutir Xenoblade Chronicles! (risos) Consegui ter um bom entendimento com a IS sobre mudar a imagem geral e correu tudo bastante bem. Mas não está assim tão diferente. Acho que quando as pessoas jogarem este título, vão dizer na mesma “Oh, isto é Fire Emblem!”

Iwata Asks
Iwata:

OK. Yamagami-san?

Yamagami:

Sou Hitoshi Yamagami do Departamento de Planeamento e Desenvolvimento de Software. Fui o produtor. Tenho desempenhado o mesmo papel ao longo da série mas, tal como Narihiro-san, a minha participação foi menos intensiva do que nas vezes anteriores.

Iwata Asks
Iwata:

Porque Yokota-san estava entre o público.

Yamagami:

Sim. No início, este projeto esteve atolado durante cerca de um ano. Estive envolvido até ao momento da decisão da atual direção, mas, quando o processo entrou em curso, entreguei-o a Yokota-san. Segundo a minha experiência, quanto mais difícil for começar algo, mais tranquilamente se desenrolará quando começares a fazê-lo.

Iwata:

Essa dificuldade inicial é importante. Então, vamos lá começar com essas “dores de parto”. Yamagami-san, com quem é que te encontraste primeiro?

Yamagami:

Encontrei-me principalmente com Higuchi-san. Já andava a propor criar um jogo novo desde que fizemos Fire Emblem: Shin Monsho no Nazo. O jogo faria parte da série Fire Emblem, mas irias poder desfrutar de um mundo diferente, como – pegando num exemplo radical – o mundo moderno.

Iwata:

O quê? O mundo moderno? Isso é chocante… (risos)

Yamagami:

Surgiram vários tipos de ideias, mas todas elas iam um pouco longe de mais, o que foi difícil.

Higuchi:

Sim. Andámos às cegas com algumas coisas, para que as pessoas que já jogavam Fire Emblem se sentissem confortáveis com este título, e os novos jogadores se sentissem pelo menos um pouco atraídos. Uma das coisas em que pensámos foi mudar o aspeto que tinha.

Iwata:

Que tipo de propostas fizeram?

Iwata Asks
Yamagami:

(risos) Um jogo chamado Fire Emblem 2011.

Iwata:

2011?

Higuchi:

Sim. (risos) Apresentámos propostas que se desviavam totalmente do mundo medieval visto anteriormente – como um Fire Emblem totalmente passado no mundo moderno ou um que transmitisse a sensação de um conto de fadas. Mas estavam demasiado longe do original e nós não conseguíamos dar o pontapé de partida. (risos)

Iwata:

Maeda-san, lembras-te de quais eram as outras sugestões?

Maeda:

Uma ideia que surgiu entre a equipa foi…bem, foi Marte.

Iwata:

Marte?!

Maeda:

Sim. Combater em Marte.

Iwata:

Combater em Marte?!

Kusakihara:

Agora já percebo porque é que Yamagami-san dizia “Isso é demasiado!”

Todos:

(risos ruidosos)

Yamagami:

Eu dei por mim a pensar “Isso ainda é Fire Emblem?!” (risos) No final, uma quebra assim tão drástica não correu lá muito bem…